Análise

They Are Billions! E eles estão com fome…

Quando a tela clareou, vi minha central de comando, quatro arqueiras e aquele soldado de armadura com uma escopeta. Me senti bem, então fui atrás de recursos.

Ao sul, havia uma floresta, ao norte um paredão de pedra, ao leste um lago que parecia ligar o topo do cânion à floresta, logo abaixo. Excelente, havia toda uma barreira natural que me protegesse.

Haviam se passado uns dois ou três dias e tinha uma cabana de pescadores, três casas e uma serraria. Minhas arqueiras e soldado guardavam a frente da base, contra um paredão de zumbis que estavam parados, aguardando o estimulo. Resolvi não provocá-los por enquanto.

Já haviam passado uns dez dias, tinha algumas casas que me davam renda a cada oito horas, um quartel de treinamento, onde já havia treinado mais algumas arqueiras (não consegui treinar soldados pois não havia uma fonte de ferro próxima), uma pequena muralha de madeira protegendo a frente da minha base e tudo ia bem.

Ali pelos vinte dias, uma onda de uma dúzia de zumbis, talvez um pouco mais, avançaram contra minha muralha e foram parados sem muita dificuldade pelas minhas arqueiras, em suas torres. Vi que era o momento de avançar pelo portão e atacar o paredão de zumbis dóceis a minha frente. Às vezes um zumbi se aproximava delas, dava um tapa (o que acionava um aviso e um ícone vermelho no topo esquerdo da tela), mas não conseguia causar dano real, pois avançava aos poucos, com cuidado.

Então, enquanto avançava, volta e meia o ícone aparecia, e então, quando vi no mini mapa, metade da minha pequena colônia estava no escuro. Imediatamente voltei a atenção para a base. Dez ou doze zumbis avançavam pela minha serraria à destruindo, já haviam destruído a cabana de pescador, algumas cabanas de caçadores, uma mineradora, e agora chegavam as casas. Cada casa gera quatro zumbis, antes que minhas arqueiras pudessem voltar para a base para defendê-la, haviam mais de quarenta zumbis, que logo virariam oitenta.

Suspirei, apertei ESC, voltei para tela inicial e recomecei…

Ali pelo vigésimo dia um zumbi mais ágil matou todas minhas arqueiras e então meu soldado. Quando a primeira onda veio, passou reto pela minha base.

Ali pelo trigésimo dia, um zumbi passou por uma fresta que não havia visto, entre o cânion e minha muralha, destruiu uma casa e infectou a colônia inteira.

Ali pelo trigésimo dia, enquanto explorava, chamei a atenção de um zumbi colossal sem querer, que me seguiu até minha base e não foi parado por absolutamente nada que tivesse ali. Sequer tiraram 5% da energia dele, antes que destruísse meu centro de comando.

Assim foram minhas primeiras quarenta horas em They Are Billions. Fracasso atrás de fracasso.

O cenário indie tem sido adorável para nós amantes de impiedosos títulos de gerenciamento, né? Tivemos recentemente o novo clássico, Frostpunk, o qual ainda faço uma análise detalhada, já que me marcou tanto, e They Are Billions, o gerenciamento/tower defense de sobrevivência pós apocalíptica do qual falaremos hoje.

Em TAB (They Are Billions), somos os gestores de uma colônia steampunk em um futuro pós apocalíptico onde zumbis devoraram toda a humanidade e, dado os números de zumbis que nos atacam, não é difícil acreditar que realmente toda humanidade foi infectada.

E é isso. Sem história, só sobreviva.

Na verdade, depois que todo pack de modificação do game foi lançado na oficina do Steam, membros da comunidade tem trabalhado criando todo tipo de campanhas, algumas delas realmente impressionantes, como uma que simula o cenário de Extermínio (filmaço de terror de 2002).

O jogo conta com os modos Sobrevivência e Desafio da Semana, além de um cenário personalizado. Por mais que já tenha visto os outros dois, meio por cima, foi o modo Sobrevivência que me tomou de assalto.

Começando com quatro arqueiras e um soldado com uma escopeta, você precisa construir sua colônia do zero, e realmente, são centenas de zumbis ao alcance da sua base em meros segundos. Você precisa construir muito rápido, expandir sem parar e ainda assim, com cuidado. É como dirigir um carro ladeira abaixo com freios de bala de goma.

Os recursos são limitados pelo espaço que você tem, então um dos pontos principais de gerenciamento é a posição de cada construção, principalmente a de recursos. Sem falar em que as margens de produção dos recursos nos edifícios, são mínimas, alguns mapas são muito diferentes entre si, colocando ainda mais dificuldade como falta de áreas de plantio, ou de madeira, ou de minerais, ou muitas áreas urbanas, que agem como focos de infecção, onde dezenas (senão centenas) de zumbis esperam o menor tiro para inundar sua colônia.

Como um dos principais pontos de TAB é a defesa contra ondas e mais ondas de zumbis, além daquelas centenas que já estão no mapa, o posicionamento e investimento em defesas é fundamental. Por deixar apenas uma barreira de madeira em um ponto próximo a minhas casas, e ter minha atenção voltada aos recursos, UM zumbi, apenas UM, derrubou um ponto da barreira, atacou uma casa, que gerou mais quatro zumbis (os residentes da casa), que atacou a casa do lado, gerando mais quatro, e a casa do lado, que gerou mais quatro e quando vi, tinha treze zumbis atacando minha base, e tive que recomeçar…

A direção de arte é muito competente, com estilo steampunk e parecendo ser desenhados a mão, cada unidade e zumbi são lindamente animados e fluídos. Tudo tem uma bela animação, desde uma residência, até o menor zumbi e mesmo a grama alta.

A trilha sonora é simples, constante e se eleva quando uma das ondas se aproxima, ou quando chegamos aos últimos dez dias, quando a onda principal vem. No fim, a trilha é bastante competente, mas nada memorável aqui.

A jogabilidade remete muito aos antigos RTS, por isso é tão familiar e agradável (ainda que às vezes seja um pé no saco perder 3 horas de campanha por um canto da base que não estava realmente bem protegido). Quando estamos sendo atacados em peso, é fácil lembrar da última missão de Warcraft 3, ou uma missão de Starcraft, no controle dos Terrans, contra os Zergs. No entanto, tudo seria mais amigável se houvesse um mapeamento de atalhos mais intuitivo.

Mas nem tudo são maravilhas. O sistema de rotas das suas unidades constantemente falha e eles escolhem uma rota mais distante, repleta de inimigos, ao invés de uma rota claramente mais próxima e segura.

Acompanhando algumas análises, percebi uma constante, jogadores experientes com mais de 50, 60, alguns até 100 horas, que ainda não haviam ganho UMA partida. Quanto disso é falta de mérito do jogo e quanto é falta de mérito nosso, como jogadores?

E isso é algo interessante. Dada a dificuldade e estilo tão característico, o jogo parece te convidar a assistir gameplays de outros jogadores, seja para ver a estratégia adotada, ou pegar uma nova estratégia para tentar de novo aquela primeira vitória. Em poucos títulos me vi assistindo gameplays inteiros, de mais de uma hora, apenas para ver quais estratégias eram adotadas, por outros jogadores, para tentar elas, eu mesmo.

A cereja do bolo está nos últimos nove dias, quando o narrador avisa “my god, they are billions”, e você tem 24 horas para fazer as pazes com seu Deus, abraçar sua família e se preparar para a onda de mais ou menos dez mil zumbis que virão de todos os lados, em busca do seu centro de comando.

Para os adoradores de Tower Defense ou jogos realmente desafiadores, They Are Billions é obrigatório.

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