Red Dead Redemption 2 – Sobre o fim do mundo e todas as coisas.

Você, leitor, deve ter achado estranho o título dessa “análise” de Red Dead Redemption 2, no entanto, tanto já foi dito sobre os aspectos técnicos que prometo não perder muito mais de um parágrafo com eles, meu objetivo hoje é falar da história, do melhor personagem e melhor antagonista já criado, pela Rockstar.

Por muito tempo tenho lutado contra essa análise. Ainda que tenha passado fácil das 100 horas de jogo e já tenha minha opinião sobre Red Dead Redemption 2, tamanho é meu respeito pelo título que nunca me senti realmente pronto para escrever algo. Não por falta de experiência, pois terminei o modo história, fiz a esmagadora maioria das missões paralelas, cacei inúmeros animais lendários e comuns, pesquei, lacei gado no campo, roubei ovelhas, trens, carruagens e casas além de simplesmente promover um genocídio em algumas cidades, apenas pelo desafio. No entanto, algo aperta meu peito, quando penso na história de Arthur Morgan e em como é fácil nos conectar a ela.

Depois de um “trabalho” que deu muito errado em Blackwater, seguimos os sobreviventes da gangue Van Der Linde pelas montanhas geladas do norte. Nunca vemos esse trabalho, o que deu errado, ou sabemos como ocorreram tantas mortes, ou quem errou. Apenas sabemos que muitos membros da gangue foram assassinados, presos, ou se dispersaram pelo estado.

Ainda que exista o problema com as autoridades estaduais e gangues rivais que tentam sobreviver nesse novo mundo civilizado, um novo problema nasceu recentemente e concentra os olhares em Dutch van der Linde e seus parceiros. A Agência Nacional de Detetives Pinkerton, famosa pela atuação na greve de Homestead, uns poucos anos antes e que resultou em nove mortos.

Eficiente e se usando de inteligência, a Agência de detetives Pinkerton, personalizada na figura do Detetive Milton, parece respirar em tempo integral no pescoço de Dutch e o restante da gangue. Seguindo em rota de colisão com o que é pregado por Dutch, em sua gangue, o detetive Milton age simplesmente como uma ferramenta da civilidade que avança em direção ao oeste, antes selvagem, apagando tudo no caminho. Ainda que seja uma ameaça constante, imparável, inabalável, apenas Arthur parece entender a gravidade do problema. Dutch, Dutch van der Linde tem um plano.

Dutch é um líder carismático e egocêntrico que prega a liberdade individual e sofre de uma forte síndrome de martirização, algo que parece servir de desculpa para todas suas ações, por mais horríveis que sejam. Para Dutch, tudo o que a Pinkerton e seus homens de terno pregam é o fim da sua liberdade e daqueles que o cercam. Dutch luta contra o sistema e, no início somos levados a crer que sim, é uma batalha ideológica, algo que nos capítulos mais avançados, cai por terra.

E plano após plano de Dutch, somos levados a beira do precipício. Perdendo e perdendo e perdendo até que nada mais tenhamos a perder. E então, perdemos de novo.

Ao contrário de seus mentores e os demais de sua gangue, entende o que está acontecendo. Arthur sabe que o tempo dos caubóis que corriam livre pelas planícies, como quando os piratas dominavam os mares, acabou; e então, sua jornada, diferente das dos demais, que em tanto se assemelham às dos demais jogos da Rockstar, é uma jornada de dor contínua, como a de um Road Movie (filme de viagem) pós apocalíptico. Não é difícil traçar um paralelo entre as histórias de Red Dead Redemption 2 e A Estrada (2009), ou o mais recente, Logan (2017).

Arthur perdeu muitos amigos e sabe que muitos mais morrerão e por isso que ele vai até o fim, para que nem todos morram. Arthur se arrasta pelo asfalto, para que a única família que conheceu, sobreviva. Arthur se arrasta até que nada mais reste dele, além de uma dolorida memória, o que justifica nenhuma menção ao seu nome, no Red Dead Redemption original.

Arthur é um personagem profundo, carismático, dotado de sentimentos e com background digno de nota, algo que nos faz sentir sua jornada, mais que apenas acompanhar. Ele sabe que é falho, que cometeu crimes horríveis e se aceita por isso, mas não de forma fria e repugnante, como Micah, que abraça seu pior lado e tranquilamente ocupa o posto de personagem mais filho da puta da Rockstar; ou buscando justificativas em um discurso ensaiado, como Dutch; Arthur busca ser melhor e mesmo próximo ao fim, ainda aplica aqueles ideais que aprendeu com Dutch e Hosea, tantos anos antes. Ele sabe que não pode lutar contra o futuro, e ainda assim, luta pela única família que conheceu, até o fim.

Tecnicalidades

Claro, os gráficos são surpreendentes, assim como a direção de arte, dublagem, trilha sonora (exemplo acima) e atenção aos detalhes, mas isso é o mínimo que podemos esperar quando mais de 3.000 pessoas (mais de três mil pessoas) trabalham durante anos, com orçamento praticamente ilimitado. O que não podemos esperar é uma jogabilidade reciclada de um jogo de mais de 10 anos.

Bastante datado, em seu sistema de jogo, Red Dead Redemption 2 não é muito diferente de GTA 3, ou Bully, ou o primeiro Red Dead Redemption. Personagens seguem as rotas pré definidas pela tela, se você não estiver no ponto certo, não poderá interagir com determinado item ou personagem e por aí vai. A movimentação é pesada, travada, como os demais títulos, também. A inteligência artificial é limitadíssima, o sistema de agressividade para com NPCs não funciona muito bem, as forças policiais contam com poderes psíquicos, pois sabem onde você está, o tempo todo, desde que esteja dentro de uma grande área vermelha, no mapa.

Sim, Red Dead Redemption 2 é uma obra prima, mas repleta de falhas, como Dark Souls. São muitos bugs, o sistema datado realmente incomoda, a cobertura nem sempre funciona, não existe um loadout padrão para garantir que você sempre tire suas armas favoritas do cavalo, o sistema de recompensas é bastante irritante, certas armas só são liberadas para compra depois de você encontrar ela com um NPC, existe uma quebra no ritmo do jogo, pouco depois da metade, com uma mudança bastante radical de cenário, e assim se segue a lista.

Não Red Dead Redemption não é o melhor jogo da história, o retorno de Jesus Cristo, ou 10/10, como muitos esperavam; mas também não é um jogo inacabado, como tantos que tem sido lançados nos últimos anos, ou conta com loot boxes, ou finais reais via dlc, ou animações terceirizadas, ou personagens rasos, ou roteiros vazios, ou, ou, ou…

Red Dead Redemption 2 é o título obrigatório para todo proprietário de um Playstation 4, Xbox One e, se um dia os deuses permitirem, PC gamer.

 

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