Porca Analisa – O Estrangeiro

Quando você ouve falar de Jackie Chan, é instintivo e imediato que venha á cabeça os filmes com a temática de kung fu, que popularizaram o ator. Suas cenas geralmente eram gravadas por ele mesmo, a filmagem era numa tomada contínua para mostrar em detalhes a briga que estava acontecendo – sem recorrer àquelas câmeras tremidas ou nas costas de um dos lutadores para disfarçar o uso de dublês – e seu humor em meio ás suas acrobacias e pancadas. Isso pra ficar só nas características principais dos filmes do Jackie Chan.

Mas não é o caso do filme que iremos tratar neste (longo, bem longo) texto. Primeiro, vamos do começo.

O Estrangeiro é um filme baseado no romance de Stephen Leather intitulado “The Chinaman”. A obra conta a história de Ngoc Minh Quan (Jackie Chan), que procura vingança após a morte de sua filha Fan – o último membro de sua família. Essa é a sinopse. Isso é tudo que acontece no filme. Talvez era até melhor ter ido ver o filme do Pelé.

E vamos aos motivos.

A trama começa com um ponto de partida interessante (Um atentado terrorista acontece no centro de Londres e membros do IRA assumem a autoria do atentado) e que precisa ter seu contexto explicado para um completo entendimento da obra. Caso você tenha pulado essa aula de história ou nunca tenha ouvido a banda U2, vamos para um breve resumo: A Irlanda do Norte e a República da Irlanda viviam em desacordo devido á questões religiosas e políticas, chegando a se separarem. No fim dos anos 60 na Irlanda do Norte, um grupo católico fez uma passeata pacífica pedindo mais representação na política, já que por serem minoria eram sempre esmagados pela maioria protestante. Polícia e milicos atacaram os manifestantes, o que deu mais gás aos ânimos exaltados e trouxe a Grã-Bretanha pra briga.

Em 1972, tropas da Grã-Bretanha que ocupavam uma região da Irlanda do Norte repreenderam a tiros os manifestantes (pacíficos até então), evento que ficou conhecido como Domingo Sangrento (Sunday bloody Sunday….). Aí sim a coisa ficou feia, e o que antes eram movimentos pacíficos tornaram-se luta armada e terrorista, muitas das vezes. Mortes, sangue, tiros e conflitos permearam os anos seguintes até um que em 10 de abril de 1998 um acordo de paz fora assinado pelos representantes da comunidade católica e protestante, dando fim á briga, chamado de Acordo de Belfast ou Acordo da Sexta-Feira Santa. Abram a apostila na página 23 agora e resolvam os exercícios do 1 ao 5. Gabarito disponível no site.

Agora vamos para o filme. Quan (Jackie Chan) está feliz da vida levando sua filha Fan para escolher um vestido especial quando um atentado terrorista ceifa a vida da garota. Devastado com a perda de seu último parente vivo, Quan vai em busca dos responsáveis pelo ataque. Como ele faz isso? Quan é um ex-militar, treinado pelos EUA, com amplo conhecimento de bombas e táticas de guerra. Como isso é abordado no filme? Numa cena de poucos segundos em que o alguém lê um arquivo confidencial de Quan. Sem maiores detalhes, umas fotos e palavras pipocadas na tela.

E a família de Quan, como morreu? Mesma técnica anterior, uma cena de poucos segundos e plau, tai o passado sombrio e chocante do protagonista. Isso é tudo que se tem no filme sobre o passado de Quan, exceto talvez por umas duas ou três frases que complementam o personagem. Em nenhum momento no filme somos levados a ver mais do lado pessoal de Quan, trazendo-o mais próximo ao espectador, criando um vínculo emocional com quem assiste, como se o principal não fosse a trama e sim as cenas de ação. Felizmente a atuação de Jackie Chan consegue nos convencer de que Quan passa por uma dor, mas nada aprofundado. Não fosse isso, é bem possível que o filme cairia ainda mais no conceito deste que vos escreve.

Lembra da aula de história no começo do texto? Vamos para sua aplicação no filme. Quan foca sua busca por respostas no vice primeiro-ministro da Irlanda, Liam Henessy (Pierce Brosnan), que fora membro do IRA antigamente e agora atua como político para defender seus ideais. Liam, por sua vez, se vê em um jogo de poder entre os representantes políticos de seu país com a Inglaterra – que teme um novo surto de violência na Irlanda. E essa talvez é a parte da trama que ela mais procura se aprofundar, mas como no Paradoxo da Dicotomia, ele sempre chega na metade do caminho e nunca alcança o fim. Não vemos diálogos trabalhados sobre o passado de Liam na IRA, o que o motivou a largar as armas e utilizar-se de um terno e gravata para defender seus ideais, tampouco sua esposa estende-se em explicar o que vira em seu marido e como passaram os anos. Nada. E tanto Mary (esposa de Liam) quanto o sobrinho Sean aparecem com certa freqüência e cai no mesmo problema de Liam. Eles desempenham papel essencial na trama, sem dúvida, mas ainda assim, pouco é explorado

Os terroristas responsáveis pelo atentado principal do filme também não se salvam, caindo no mesmo problema de Liam, sua família e demais envolvidos. Qual o impacto da guerra em suas vidas? Qual a visão deles da guerra e os ecos em suas vidas? O que esperam com os atentados, o que os motivou a estarem ali, quais são os próximos atos, como se relacionam com o que veio antes… tantas e tantas coisas a serem exploradas um pouco mais a fundo. Com uns 20 minutos a mais de filme teríamos muito mais explicações e envolvimento com o que é mostrado na tela. Entretanto, para nós que não participamos ou pouco sabemos da Guerra, é praticamente impossível comprar a idéia de que o filme tenta passar, do perigo de voltarmos ao fim do século passado com seu sangue derramado.

Então, se a trama que deveria sustentar o filme não o faz, o que sobra? A ação do filme, que o torna um desses filmes de ação que você descobre quando muda de canal num domingo a tarde e resolve ver seja em qual parte for, porque vai dar na mesma. O personagem principal vingativo apronta mil e uma pra conseguir as respostas que procura, explosões, perseguições, uma ou outra troca de socos, ele se esconde. O antagonista defende-se e acredita poder lidar com o problema até o último instante, quando vê que seu ego foi grande e subestimou o protagonista, que vence. As respostas são encontradas, um minuto em tela de poeira baixando e o herói voltando pra casa. Sobem os créditos. Você levanta do sofá e lembra que tem que trabalhar no dia seguinte. Fim.

A direção também não é nada espetacular, mas sem dúvidas captou muito bem os diversos momentos do filme. As tomadas nem de longe lembram os filmes de Jackie Chan, onde a câmera acompanhava a ação registrando em detalhes. Aqui, tudo funciona bem á moda de Hollywood: câmera que treme, cortes rápidos, silhuetas… exceto por algumas cenas, todo o resto é aquela gambiarra visual popular nos filmes desde faz tempo. Trilha sonora e efeitos especiais entram no pacote “passável mas que funciona”, sem maiores destaques ou pontos que valham menção.  Junto a isso, temos uma fotografia que funciona bem conferindo ao filme uma identidade bem marcante e facilmente reconhecível.

Isso significa que o filme é ruim? Não. Mas não estou sozinho quando digo que eu esperava mais do filme, principalmente por ser uma empreitada de Jackie fora da sua zona de conforto nos filmes de pancadaria. Os personagens são pouco abordados no tempo de filme que nos é apresentado, mas mais pelo pano de fundo pesado e marcante em que o filme se insere (uma das maiores guerras civis do fim do século passado). Num paralelo, da pra comparar este com o primeiro filme da série Duro de Matar. Com quase o mesmo tempo de filme (aproximadamente 2 horas) somos apresentados aos personagens que mesmo sem ter muito aprofundamento, existem e funcionam em seu microverso (um assalto á uma empresa), evoluindo e cativando-nos com poucas linhas de diálogo sobre seu passado.

O Estrangeiro falha em não se firmar no universo em que é inserido, e isso custa sua relevância frente a outros filmes. Vale assistir descompromissadamente quando não tiver mais nada para assistir ou enquanto espera o download de um jogo acabar.

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