AnáliseFilmes

Lista da Vergonha – Forrest Gump

Então, lembra aquele filmão que todo mundo fala que foi lançado lá em mil novecentos e guaraná com rolha, referência no gênero, campeão de bilheteria, sucesso de críticas e amado pelo público? Eu não. Na verdade, nem vi esse filme tão adorado.
“Mas qual filme que você não viu, ó ser de careca reluzente?”, você pode estar se perguntando. E a resposta é: um monte. Claro que vi bastantes filmes na minha vida (muitas animações infantis nos últimos anos), mas a lista de filmes consagrados que deixei passar também é enorme. Ou eu nunca vi, ou vi naquela época que passava na Sessão da Tarde e não lembro nem a cor da roupa do personagem principal.
Aí pra acabar com esse problema recorrente em conversas (principalmente com o @gakuma, que é cinéfilo ferrenho) eu resolvi fazer minha listinha da vergonha, onde vou anotando os nomes dos filmes que eu deveria ver e não vi e dou cabo neste problema. De repente você também não viu este filme e assim vamos trocando figurinhas. Ou você já viu e quer ver agora minha reação com o filme, mil e um anos depois de todo o resto da humanidade já ter visto.
Começo hoje pelo clássico do Tom Hanks que me fez lembrar porque eu NÃO DEVO ver filmes do Tom Hanks: Forrest Gump.AVISO: O TEXTO ABAIXO PODE CONTER SPOILERS. QUILOS DE SPOILER, OU MILIGRAMAS. MAS PODE TER SPOILER.No filme somos apresentados a Forrest, um homem com uma forte limitação intelectual, mas de bom coração que gosta de ajudar as pessoas e conversar, contando suas várias histórias. Criado pela mãe no interior, vê seu amor em Jenny, uma amiga de infância com quem ele se reencontra várias e várias vezes. Essa é a explicação simples e superficial do filme.

Bom, vamos por partes. A primeira coisa que se destaca no filme são as atuações, e se destacam num bom sentido. Todos os atores entregam um trabalho excelente, dando realmente o tom de que aquilo é um filme “real”. Digo real no sentido de te fazer acreditar nos personagens, ter uma empatia real pelo que é mostrado ali na tela. Da Jenny (Robin Wright) que representa uma verdadeira metamorfose ao longo do filme, mudando a cada cena em que é mostrada, Buba (Mykelti Williamson) em sua simplicidade similar á de Forrest, Tenente Dan (Gary Sinise) que perde a cabeça quando não morre na guerra (como vários “heróis” de sua família ao longo de muitos anos) e vive com as duas pernas amputadas, chegando nos atores secundários que preenchem pontas aqui e ali. Tudo muito bem montado.
A trama vem logo em seguida nessa seqüência de destaques. Forrest, sentado no banco, conta várias partes de sua vida para outros que esperam o seu ônibus chegar. E vamos desde quando era uma criança, ainda sob as asas da mãe, até o momento derradeiro do filme em que Forrest está com seu filho indo para a escola, passando por guerra, pesca, viagens á uma China fechada ao mundo… todos os fatos se conectam de maneira muito fluída e natural, sem parecer forçado em momento algum. No máximo daria pra apontar que Forrest é o homem mais sortudo do mundo, mas novamente, de maneira natural.
Some-se a isso uma trilha muito bem montada, pontuando os principais momentos, e temos um filme que realmente faz jus a tudo que é dito dele, seja na crítica especializada ou nos dedos do público em postagens pela internet. Mas não dá pra falar do filme de maneira tão superficial – ou genérica – quanto eu fiz até agora. Ou dá, mas tanto se perderia disso…
Como por exemplo a cena de Forrest perdendo seu melhor amigo na guerra do Vietnam. Buba, como era chamado, conta-nos toda a história de sua família no ramo de pesca e venda de camarões, e planeja abrir uma sociedade com Forrest. Lado a lado, ambos cuidando um do outro durante esse momento difícil, até que durante um ataque Buba é ferido mortalmente, e mesmo Forrest, que demonstra poucas emoções, sente-se abatido com a perda do melhor amigo, marcando-o nos momentos subseqüentes. Um vínculo que vai do 0 ao ápice e término em poucos minutos, mas que foram mais intensos do que filmes inteiros de 2 horas e tanto. Uma amizade tão genuína e pura, sem quaisquer interesses, que nasce e morre num aparente “sem sentido ter colocado isso aqui”, como tantas coisas na vida.
Ou as interações de Forrest com os presidentes dos Estados Unidos em diversos momentos, todos eles completamente fluídos e com aquela cara de “puro acaso”. Forrest,quase com a simplicidade de uma criança, mostra ao presidente onde levou um tiro na guerra – na bunda – na frente das câmeras; diz querer ir fazer xixi após ser perguntado “o que gostaria de fazer agora que foi campeão de tênis de mesa” e ter voltado da China, um país fechado ao resto do mundo; seu pesar em ver a morte de outros dois presidentes… a simplicidade do personagem é tocante, no mínimo.
E pulei de propósito citar a atuação de Tom Hanks, para ficar claro que o personagem de fato existe ali na nossa frente. Tom Hanks nos dá um Forrest Gump, vivo, respirante, pensante, ponto. E o fato de ter ele no elenco é um dos motivos de eu ficar com os dois pés atrás para assistir o filme. O único que me lembro de ter visto até o fim foi “Á Espera de um Milagre” (que preciso rever, porque não lembro praticamente nada), no qual chorei de soluçar. Adivinha o que aconteceu em “Forrest Gump”? Pois é…
Forrest é tão puro que seus sentimentos são incontestáveis e quase daria pra cortar com uma faca de tão densos. Sua dor na perda da mãe e de Buba é real; seu riso e prazer quando reencontra o tenente Dan Taylor, que após os traumas da guerra aceita seguir com Forrest no ramo de pesca de camarões; seu ato de roubar uma raquete que usava para jogar tênis de mesa no exército é tão espontâneo; sua angústia quando resolve correr por três anos para esquecer Jenny, que recusou casar-se com ele, e posteriormente em sua morte, na mescla das dores do amor não correspondido e da perda da pessoa amada; a hesitação e o medo em saber que é pai (que me pegou por eu ter passado por isso) e medo/alívio de saber que a criança não compartilha sua deficiência… Qualquer pessoa que não tenha uma batata no lugar do coração já estaria com os olhos vermelhos na metade do filme, como eu estava.
Tem humor, tem drama, tem choro, tem ação, tem Tom Hanks… nem batata palha seria capaz de melhorar o filme. De fato, é tudo que dizem e mais um pouco, com certeza.
Etiquetas

Artigos relacionados

Comente aqui...

Verifique também

Fechar
Fechar